Relato de uma mulher sem rins, que faz diálise há 8 anos e conseguiu amamentar

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"Nasci com os rins policísticos, tinha tantos cistos que meu abdome era grande e os meus rins eram considerados do tamanho de um rim adulto. Os médicos falaram para minha mãe que eu só tinha duas horas de vida. Fui sobrevivendo um dia após o outro, fiquei três meses internada até que fui para casa. Fazia acompanhamento com nefrologista e iniciei o tratamento conservador.

 Ao longo dos anos fui perdendo a função renal até parar completamente entre 10, 11 anos. O médico me encaminhou para a hemodiálise, mas minha mãe prontamente disse que doaria o rim dela. Fiz o primeiro transplante aos 11 e também retirei o meu rim direito.

Quatro anos após o procedimento, fiquei um ano internada para tratar cálculos renais e para fazer mais de 10 cirurgias na tentativa de corrigir problemas no ureter. Tive trombose no rim, perdi o transplante após cinco anos e no dia seguinte comecei a fazer hemodiálise.

Hemodiálise me permitiria continuar vivendo

Muitas pessoas me perguntam se me revoltei com o que aconteceu, e a resposta é não. Fiz mais de 10 cirurgias, era grata a Deus por estar viva e estava aliviada de ter um outro tratamento que me permitiria continuar vivendo e correndo atrás dos meus sonhos. Sempre fui uma pessoa ativa, determinada e de fé. Poucos meses depois de iniciar a diálise, prestei e passei no vestibular de nutrição. Paralelamente, fiz o tratamento por dois anos e seis meses —nesse meio tempo retirei o meu rim esquerdo policístico— até conseguir outro rim na fila de transplante.

Fiz o segundo transplante aos 18, fiquei apenas um ano e seis meses com ele. Tive problemas no ureter, ele descolou da bexiga e a urina vazava dentro da barriga. Sentia uma dor insuportável, era como se tivesse um ácido me queimando.

A intercorrência foi resolvida com cirurgia, mas com o passar do tempo fui perdendo minha função renal novamente. Um exame já tinha apontado risco de rejeição do transplante. O médico recomendou esperar para ver até aonde o rim iria aguentar, mas estava me sentindo muito mal e preferi retirar o rim transplantado, voltar para a hemodiálise e ter qualidade de vida. Prosseguimos dessa forma, fiquei sem nenhum rim e, como consequência, não urino mais.
Voltei a fazer diálise em agosto de 2015, me pareceu a melhor escolha naquele momento, mas vivi uma fase bem difícil. Fiquei mal, entrei em depressão, pensava que ia morrer. Não me reconhecia mais como a Gabriella positiva e alto-astral que todos conheciam. Comecei a fazer terapia e a enxergar a situação sob uma nova perspectiva.

Em 2015 me formei e comecei a trabalhar como nutricionista, em 2016 me casei e em 2017 criei o Instagram @decidi.viver, em que falo sobre doença renal, mostro minha rotina e compartilho conteúdos motivacionais. Algo que me irritava era as pessoas me verem como uma coitada, incapaz de fazer as coisas por estar "presa" numa máquina, isso não é verdade.

Muitos pacientes com doença renal que fazem diálise incorporam essa ideia, param na vida e ficam esperando a morte chegar. Decidi viver e encorajo eles a fazerem o mesmo, a lutar pelos seus objetivos e a lidar e a superar as adversidades da doença.

Médica me aconselhou a não seguir com a gestação

Já ouvi de alguns médicos que a doença renal afeta a fertilidade, que é muito difícil engravidar e quando acontece pode ser de risco. Ao descobrir que estava grávida da Ana, uma obstetra me criticou e disse que era melhor não prosseguir com a gestação para não colocar a minha vida e a da minha filha em risco, mas fui adiante com meu sonho de ser mãe, acompanhada por uma equipe que me deu todo suporte.

Durante a gestação, aumentei o número de sessões da diálise, de 3 para 6 dias da semana, 4 horas por dia. Nesse tempo, pesquisava as coisas para o enxoval, montava as dietas dos meus pacientes, assistia séries, mexia nas redes sociais e pesquisava conteúdo para o podcast RenalCast!.

Uma outra questão envolvendo a gravidez é que tinha certeza que não iria amamentar. Muita gente fala que precisa beber bastante água para ajudar na produção de leite. Como tenho restrição de líquidos, já estava conformada com isso e me limitei a procurar as melhores mamadeiras e bicos.

Ana nasceu no dia 7 de março de 2021, prematura de oito meses. Meus seios encheram de leite, imaginei que ia durar uma semana ou que iria acabar assim que voltasse para a diálise. Para minha surpresa, continuei produzindo leite e a Ana fez a pega correta de primeira. Já são cinco meses amamentando, ela só toma fórmula quando vou para a diálise.

Atualmente, me divido entre o tratamento, nos atendimentos presencial e online com meus pacientes e no cuidado com a minha filha. Compartilho um pouco da minha experiência para mostrar que é possível ter uma vida normal dentro do possível.
Na verdade, tudo depende das escolhas que fazemos, poderia ficar reclamando, me lamentando e me fazendo de vítima ou poderia decidir viver e ser feliz mesmo com as dificuldades e foi o que fiz."
 

Fonte: https://www.uol.com.br/vivabem
Imagem: Arquivo pessoal - cedido por Gabriella Moreira 

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